Notas não aleatórias

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

Que sujeitos-leitores queremos para nossos escritos?

Zaratustra, o mestre protagonista do livro Assim Falou Zaratustra (Nietzsche), vai afirmar a importância de nos tornarmos independente dos ensinamentos recebidos. Como discípulos devemos lutar pela autonomia, pelas nossas ideias, nas palavras dele: “Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas o aluno”. Com isso, o mestre nos aponta que não devemos permanecer seguidores daqueles que nos ensinam, não é isso que anseiam os educadores. Pelo contrário, ensinar é possibilitar caminhar sua própria história. Os discípulos que Zaratustra quer são aqueles que buscam seu trajeto, buscam-se a si mesmos.
Como produtores e divulgadores do conhecimento, nossa tarefa também não se mostra diferente. Tanto como professores, pesquisadores ou escritores, devemos procurar desenvolver nosso trabalho no sentido de propiciar sujeitos-alunos, sujeitos-leitores que tomem nossos dizeres como ponto de partida e não de ancoragem – o espaço que, sim, é seguro, mas sem capacidade de criação.
O autor Jorge Larrosa discute a relação entre educação, os atos de ensinar e a leitura, a partir do filósofo Nietzsche, e defende que “ensinar a ler de outra forma é educar o homem por vir, o homem do futuro. Porém, ensinar a arte da leitura não é transmitir um método, um caminho a seguir, um conjunto de regras práticas mais ou menos gerais e obrigatórias a todos” (p.25). Nesse sentido, a aprendizagem se dá não através de conceitos e práticas/protocolos, prontos, acabados. Não existe aprendizagem fora do pensamento, da reflexão, ou seja, não existem modos de ensinar aos estudantes sem que se leve em consideração em que aquilo que falamos se relaciona com suas vidas. Não para ditar regras, costumes e valores arraigados de nossa ciência e nossa sociedade, mas para que possamos oportunizar novas maneiras de olhar e agir – consigo e com a sociedade. Assim, Larrosa dirá ainda que “a tarefa de formar um leitor é multiplicar suas perspectivas, abrir seus ouvidos, apurar seu olfato, educar seu gosto, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar um caráter livre e intrépido… e fazer da leitura uma aventura. O essencial não é ter um método para ler bem, mas saber ler, isso é: saber rir, saber dançar e saber jogar, saber interiorizar-se jovialmente por territórios inexplorados, saber produzir sentidos novos, múltiplos”. Finalizando, Larrosa dirá que “todos os livros estão para serem lidos e suas leituras possíveis são múltiplas e infinitas; o mundo está para ser lido de outras formas; nós mesmos ainda não fomos lidos” (Larrosa, 2002, p.26-27).
Ainda sobre leitura e conhecimento, podemos nos interrogar qual o significado da palavra “ler”. Constam no dicionário Houaiss os seguintes significados: conhecer, através de exame mais ou menos extenso (o conteúdo de um texto); dedicar-se, entregar-se à leitura como hábito ou paixão; compreender, interpretar.
Interessante, não? A leitura é vista, nos dias de hoje, como algo monótono, chato e desinteressante. No entanto, ao olharmos as palavras a ela atribuídas somos levados a pensar não somente nas letras justapostas, mas ao conhecimento e, melhor ainda, à paixão. Paixão por conhecer, compreender, talvez… Ter como hábito a vontade de saber.
Pensando nessa perspectiva, o monótono, quem sabe, pode ser ficar no mundo, sem essa nova aventura que é a paixão que o conhecimento nos proporciona, os lugares que a compreensão nos leva! Desinteressante passa a ser o hábito de entrevar-se, ao contrário de entregar-se à paixão pelo saber…
E ao tomarmos o ato de ler como interpretação torna-se importante, também, ressaltar seu caráter individual – a nossa leitura do mundo, a visão das coisas que nos cercam, o nosso conhecimento construído a partir dos livros que lemos, as nossas memórias formadas com as palavras dos textos. E, talvez, o mais importante de tudo: os passeios possibilitados pelo conhecimento!
Quem sabe um dia possamos desenvolver o que Mário Quintana nomeou como A arte de ler, ao descrever o leitor que mais o fascinava. Nas palavras do poeta: “O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Nesse momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria”.
E vocês, não gostariam de arriscar?
liberdade

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