Notas não aleatórias

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

Dos fatos isolados

Retrospectiva 2014:
Última retomada do ano que passou… Não tinha como ser diferente, esta postagem foi feita pela revolta de ler como ato isolado a violação de um corpo, de ler visceralmente um juiz banalizando uma violência tão forte e amedrontadora para todas as mulheres.
Uma revolta que culminou neste escrito, escolhido para a última retrospectiva por ter sido a poesia recordista de acessos e compartilhamentos no dia da publicação (125 leitores no dia, 215 leitores no total). Duro, triste, pesado… Um desabafo, um manifesto.

Meu corpo, minha luta, meu prazer,
Nessa pele a tua força
Só entrará com convite

Notas não aleatórias

Rasga a pele
Dilacera a alma
Interrompe a vida
Destroça o corpo

Diminui a culpa
Minimiza o ato
Autoriza o tapa
O pau, a porra

Deixa o menino seguir
Legitima a vontade de gozar
E segue, acusa a menina:
De vestir, de andar, de beber, de existir

Aponta na rua e grita
Joga pedra, cospe, ejacula
Atira na lama, ignora o sofrer
Sofrer? Foi só um ato

Deixa a sociedade seguir
Na barbárie dos corpos
Que não podem viver
Sem pedir, ajoelhar, implorar

Até quando, mulher?
Até quando menina?

Enquanto banqueteiam-se
Isoladamente, futilmente
Desgastando a carne
Tratando como lixo

Até quando, homem?
Até onde humano?

Ri sociedade
Da piada sem graça
Do asco do corpo
Que segue na luta

Ri, com asco
Até quando?

Reage mulher
Usa tua voz
Tua gana
Tua força

Urra a plenos pulmões: NÃO MAIS
Meu corpo, minha luta, meu prazer,
Nessa pele a tua força

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