Notas não aleatórias

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

Arquivo para a categoria “Irrealidades contadas”

Narrativas e madrugadas

Dizem que ela, antes que pudesse perceber, alongava conversas durante a madrugada falando de divisão celular, explicando situações e motivos para compreender aquilo que a encantava. Em outros momentos, devaneava sobre idealizações futurísticas de Asimov, suas problematizações acerca de como a sociedade leria cada vez menos e automatizaria o aprendizado (como o primeiro conto de os Nove Amanhãs), ou como as previsões da psicologia estatística se vinculam ao período histórico em que foram escritas, sorrindo sem querer entre os devaneios e mostrando seu lado mais incontidamente nerd.

Ao que o garoto replicava, após escutar em silêncio os devaneios da menina, várias vezes: você é a pessoa mais nerd que eu conheço! E ele? Quando falava, interrompia a narrativa para respirar – pois ele, ao falar de si, sempre prendia a respiração e ficava levemente ofegante. Marcas de uma ansiedade rodeada de pensamentos constantes – eu penso demais, costuma afirmar como mantra. Em conversas madrugada a dentro, cita leituras da dramaturgia mais desconhecida (para a garota, claro…), explica as relações políticas, construções das personagens, esse mundo que é distante e, ao mesmo tempo, tão comum e bonito. Entremeado de suas histórias, cita Clarice, de forma simples – como se simples fosse: A grande tarefa é ir até o fim.

Cada um tem o inesperado que merece – isso ambos sabiam…2016-09-14-16-05-45

Diálogos (não) inventados

Em meio a conversas aleatórias sobre admiração e respeito, os significados das palavras parecem encantar. Empatia, por exemplo…

Sabe? Aquilo que anda faltando na vida mais miúda cotidiana? Em momentos de singular desprentenciosidade a tal da empatia ganha atenção por ser rara e, quando mencionada, parece pairar com um ar de alívio daqueles que se sentem sufocados por perceberem o outro como sujeito.

Enquanto a conversa desenrolava, suave, além de empatia surgem pitadas de sarcasmo e ironia apontando uma sagacidade incomum naquele garoto…
– Estilos de vida que tenho um apreço grande – disse ele…

Em meio aos compromissos diários, às urgências da rotina, despediram-se declarando a necessidade de continuar a conversa, em vontade recíproca (outra palavra que aparentemente ambos encantam-se), a fim de abordar os significados de palavras interessantes, dentre outras bobagens (sérias ou não):

– Ai de você se não me der essa oportunidade de seguirmos a conversa…

Tendo em vista os horários na agenda, mil e-mails pendentes e compromissos inutilmente vividos mas inevitavelmente irrevogáveis, envolta em pensamentos, ela deixa escapar, em voz alta:

– É. Ai de mim se eu não me der essa oportunidade de seguirmos a conversa…

20141003

Vem aqui que te explico…

Sobre sentir (o tempo e o deleite)

E em meio a uma conversa, ela proclama:
Não te satisfaças com um cara que queira te fazer gozar. Não que isso não seja fundamental! É que não tem que ser uma obrigação para ele, sabe? Queira um cara que se divirta absurdamente com teu corpo, por puro deleite dele: mas com o TEU corpo… Meter é o corpo dele. Usar teu corpo inteiro, com o corpo inteiro dele, é o teu corpo!

É que ela descobriu, depois de um tempo, que o gostar daquele menino era sincero, mas não era por ela. Aliás, não é por ninguém, é um gostar à toa. Aquele menino parecia ter prazer na permanência de incontáveis momentos se divertindo, apenas. Não que não fosse especial, o que ela não sabia era se outras mulheres se davam conta do quão especial era aquele tempo dedicado (seja algumas horas, um dia, uma semana). Um tempo em que sua pele, seu corpo, cada detalhe seu, era vontade, capricho, propósito e intenção. Um tempo de um desejo simples, de deleitar-se pelo olhar que se perdia em curvas de lençóis e de seu corpo. Um tempo de admirar sem preocupar-se com os segundos que se perdem vagarosos. Um tempo de fazer sorrir exatamente por tomar tempo sendo egoísta – o prazer de si, no corpo do outro, sabe?
Não?
Pois ela sabia e tinha um orgulho imenso (e silencioso) deste saber.

04 copy

ela sabia: o que a pele pede

Navegação de Posts

Caderninho de Ideias

Pra escrever o que eu acho sobre tudo que gosto!

TROVANDO ideias

TROVANDO ideias

cozinha pra machos

todo mundo pode cozinhar

Escreva Lola Escreva

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

Ecce Medicus

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

Blog do Sakamoto

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

%d blogueiros gostam disto: