Palavras ao Vento

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Arquivo para a tag “Feminismo”

#niunamenos

não desce
a dor, torpe sentir
de ser, só, mulher
e por ser, só: mulher
a que nasce e vive
para servir, culpar: morrer
 
sou, sim, culpada: de minha luta
de me assumir, como todas: puta
do orgulho que corre em meu corpo
do desejo, da vontade, do deleite
do trabalho, da competência, da liberdade
culpa de ser minha – de me negar a ser de outro
culpa, sim, por urrar por tudo isso e dizer: não.
 
nenhuma a menos, não aceitamos, não toleramos
teu ódio, teu medo, tua violência.
Nenhuma de nós.
Putas ou santas, pudicas ou sacanas
todas nós, juntas: um coro
nosso corpo, nossa vida

O medo nosso de cada dia

Dilacera a carne
viola o corpo
finda a alma
cospe, ejacula, ignora
é só corpo, carne, coisa
exibe, ri, goza
é só uma piada.
xinga, culpa, julga
é vadia, tava pedindo, foi pro baile
a roupa é curta, o decote profundo
ela queria, não era virgem, já tem filho
é novinha, mas corre atrás do moço
sabe? É instinto, ele não consegue segurar
E ela? Nesse dia?

É mais um dia, sai na rua
Com que roupa?
Com qual batom?
Com qual decote?
E a saia? Aparecia o tornozelo?
Assim não pode
tá pedindo
tá deixando
tá querendo
tá, sim, merecendo
Se tivesse em casa
se tivesse na igreja
se tivesse trabalhando
se tivesse calada
se tivesse casada
Se não tivesse: vida
Salva estaria.

Que ódio é esse, mina! E eu? Não sou assim!
Nem todos são assim
Nem todos riem da piada
Nem todos contam a piada
Nem todos te ofendem
Nem todos te cantam na rua
Nem todos te passam a mão, a rola, o corpo, a língua
Nem todos te querem violentada
Nem todos te querem morta
Nem todos te querem exposta
Nem todos se compadecem
Nem todos te respeitam
Nem todos te olham
Nem todos se interessam
Nem todos são odiáveis
E eu digo: nem todos são odiáveis, mas nenhum sente o que é cotidiano.

Cotidiano? Como assim?
Aquilo que nós, mulheres, vivemos,
à cada saída na rua:
o apelo do cuidado
a sede pelo corpo
o anseio dos pais
o chiado do abuso
a mão que persegue
a rola que roça
os olhos que perseguem
todas vivemos: o medo.

Tu te ofendes por não ser todos?
Pois eu sinto medo: como todas.

2

eu sou contra a cultura do estupro

Ingerências do Corpo: Prezados Senhores, uma resposta

“Não te estupro, pois tu não mereces” – Bolsanaro, 2014.

Prezados, 

Eu me deleito, pois eu mereço
Eu gozo, gargalho, grito, gozo de novo
E este corpo, não precisa de ti, para o gozo.
Nem da autorização do Estado
Ou da gerência de um homem
Só, somente só, da vontade da minha pele
Para o riso, o prazer, a volúpia
Minha, para mim, sobre mim,
sobre (a) minha pele, com minha pele,
Pelo sabor do meu corpo
Pelo meu suor, com vontade, sozinha
Ou acompanhada, quando eu quiser
E por, sempre, merecer
Minha festa, com dedo, língua e suor
E festa, muita festa.

Mas estupro, caros senhores, não mereço.
Nem eu, nem ninguém. Nem, perceba
no auge de vossas intenções de gerência
sobre o corpo e prazer alheios, vocês.
Sobre os corpos das mulheres, a força – e muita força
Só entra quando nosso querer mandar.

#MinhaFesta #MinhaVontade #MinhaPele

#MinhaFesta
#MinhaVontade
#MinhaPele

Dos fatos isolados

Rasga a pele
Dilacera a alma
Interrompe a vida
Destroça o corpo

Diminui a culpa
Minimiza o ato
Autoriza o tapa
O pau, a porra

Deixa o menino seguir
Legitima a vontade de gozar
E segue, acusa a menina:
De vestir, de andar, de beber, de existir

Aponta na rua e grita
Joga pedra, cospe, ejacula
Atira na lama, ignora o sofrer
Sofrer? Foi só um ato

Deixa a sociedade seguir
Na barbárie dos corpos
Que não podem viver
Sem pedir, ajoelhar, implorar

Até quando, mulher?
Até quando menina?

Enquanto banqueteiam-se
Isoladamente, futilmente
Desgastando a carne
Tratando como lixo

Até quando, homem?
Até onde humano?

Ri sociedade
Da piada sem graça
Do asco do corpo
Que segue na luta

Ri, com asco
Até quando?

Reage mulher
Usa tua voz
Tua gana
Tua força

Urra a plenos pulmões: NÃO MAIS
Meu corpo, minha luta, meu prazer,
Nessa pele a tua força
Só entrará com convite

Grita. mulher: quero e posso
Rir alto, beber muito
Trabalhar árduo, ganhar igual
Correr na rua: não é por ti

Grita, mulher: eu exijo o ato
Foder forte! Gozar? Todos os dias
Com minhas mãos ou tua língua
Mas só quando eu quiser

Grita o óbvio: meu corpo
Meu deleite, minha festa, 
Nessa casa mando eu
E só entra quando eu quiser

Chega de juiz
Chega de governo
Chega de gerência
No nosso corpo, mulher

Chega de culpa
Chega de abuso
Chega de desmando
No nosso corpo, mulher

Fato isolado?
Como o corpo dilacerado?
A vida interrompida?
A alma destroçada?

Até quando mulher?
Até quando menina?
Até quando homem?
Até onde humano?

Eu digo:
Não passarás

Nosso corpo, nosso prazer,
Nossa festa, nossas regras

Meu corpo Minhas regras Meu prazer

Meu corpo
Minhas regras
Meu prazer

Mas qual o motivo de tanta revolta, garota? Não sabes? De novo, ultraje, violência e permissividade.
“Mesmo tendo sido preso em flagrante, juiz levou em conta que jovem de 25 anos é réu primário e disse que estupro é “fato isolado”” – Não, não posso, não consigo, não quero calar-me. Não mais…
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/10/justica-manda-soltar-suspeito-de-estuprar-adolescente-na-capital-4620804.html?utm_source=Redes+Sociais&utm_medium=Hootsuite&utm_campaign=Hootsuite

Das culpas de ser mulher

Choro por mim, por todos
Que pensam, falam, apontam
Na rua, na vida, na casa
Na rotina: modos de ser
Que culpam, diminuem, invalidam
Sujeitam a mim, a todas
A vestir isso, comer aquilo
Comportar assim, falar assado
Pois és menina, és mulher
Cor-de-rosa, comportada, delicada
Dedicada, é para casar…
Pois lava, passa, limpa, cuida
Ama, apanha, desgosta e cala

És menina? És mulher?
Pois então, desveste a pele
Da culpa, da rotina, da violência

Viva!
Abra e feche
O coração, as pernas, a razão
Quando lhe convier, quando amar, ou quiser
Vive e condene à culpa aos culpados
Liberta, e vive!

E trucida, dilacera, destroça
Com toda a elegância, delicadeza
Garra, fome e vontade
Que só uma mulher
Que anda, por onde quer
Que veste e sabe que é seu direito
Que submete a vontade
Somente a si mesma
Que pensa, diz, grita, ri
GAR-GA-LHA (alto)
É capaz.

Viva e seja feliz!

*Não há como calar frente às pesquisas divulgadas hoje sobre a culpabilização da mulher pelo estupro cotidiano e a permissividade da violência doméstica e sua possibilidade de justificativa em relação ao comportamento do homem. Não há como calar, no peito, nas vísceras… por isso, escrevo ‘esbravejadamente’, numa rabugice sem tamanho, nem vergonha… Não leu nada a respeito? Quer saber mais? Veja nas reportagens (aqui e aqui) o que foi constatado sobre como pensam homens e mulheres sobre estupro, violência doméstica e outras sandices. Veja também este blog que comenta brilhantemente o tema.*

(Quem sou? Essas aí, abaixo. Uma, mil, cada dia uma e nenhuma. Mulher: que pensa, ri, grita, chora, gargalha -e alto. Em uma montagem ego-trip da série: “vivo as inconformidades da vida, mas feliz por isso”)

Ana

 

update: entrando na campanha #eunãomereçoserestuprada

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