Notas não aleatórias

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

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Sonetos que não são 1

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Aflição de ser eu e não outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
e à noite se prepara e se advinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha).

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst

E sendo água, amor, querer ser terra...

E sendo água, amor, querer ser terra…

O Fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça. 
Representou para mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros

#Silêncio

#Silêncio

Feliz Dia Nacional do Fotógrafo a todos que fazem do instante poesia registrada ❤

Do Gigantismo

Olha o que aconteceu aos Grandes Impérios! Por eles se vê que a mania de grandeza é sempre fatal.
E espia só os iguanodontes , esses pesadelos ridículos…
Se fossem do tamanho de lagartixas, existiriam até hoje.
Mário QuintanaPensando_palavras_ao_vento_Mario_Quintana (A vaca e o Hipogrifo, 1977)

Então queres ser um escritor?

(Charles Bukowski; Tradução: Manuel A. Domingos – via Revista Bula)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.
bukowski2-620x400

Sobre cair

Ela olha a ferida, assopra e diz: shiiiii, vai passar. você acredita naquilo como ela acredita piamente em Deus, engole o choro, vai modulando a respiração, olhando as pessoas ao redor, um pouco constrangido pelo tombo, evitando encará-las. aí você levanta limpando com cuidado o joelho, batendo uma mão na outra e segue, resolutamente, sabendo que vai passar, aprendendo onde há um potencial tropeço, prevenindo-se, até que, pá, inesperadamente, você cai de novo e de novo e, por fim, você sabe que o inevitável mesmo é aprender a cair com segurança.

Esta parece que foi encomendada do meu amigo, poeta, escritor, revisor… Tem criança que nasce encantada nas palavras… 😉
Maykson Cardoso
http://conversura.tumblr.com/

Hoje é dia de luta…

“en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas”

(Leminski, melhores poemas, p.60)

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