Notas não aleatórias

[o acaso da vida existe, a aleatoriedade da escrita: jamais!]

Arquivo para a tag “Tristeza não tem fim”

Massa crítica

A massa, disforme,
deforma no vagão
sovada pelas curvas
dobra seu tamanho
no mesmo espaço
e espera…
o ponto,
a hora exata
e trabalha
trabalha
trabalha
e espera
a exata hora
do ponto
e volta, como massa
deformada no vagão
exprimida nas ideias
diminuída no tamanho
comprimida no espaço
e, calada, espera
o próximo gol.
Grita.
Bebe um gole
da pilsen
aguada e gelada,
que refresca
a noção
de ser massa.
Gol. Grita. Bebe.
Engole a vontade
de ser mais
que massa
mediana

Crítica é a massa
que aguarda a vida
trem no horário,
passo atrasado
ficar cansado
andar parado
viver no passado
esperar o futuro
sem gozar
o presente
o momento
o sublime
instante
do efêmero.

A massa critica
a crítica da massa
e no outro dia
comprime
de novo
a massa
disforme
deformada
no vagar.

#SomosMassa

#SomosMassa

Solidão

Solidão é o nome do cão
que dorme sossegadamente,
as vezes suspira e, ruidosamente,
reafirma sua existência,
as vezes acorda faminto
e devora noites insones
#Solidão

#Solidão

Em tempo: Ser humano?

O que choca não é a mordida de um cão estressado, em meio aos helicópteros, tiros, bombas, gritos, em meio a uma cena de guerra.

O que desestabiliza e nos põe às lágrimas não são depoimentos isolados narrando um tempo de dedicação a um ideal, a um país, a um estado, aos filhos daqueles que batem (e dos que mandam bater).

O que indigna não é o descaso por um futuro e presentes trucidados, por cortes orçamentários de uma vida de trabalho.

O ultrajante não é a falta de vergonha de quem senta em confortáveis cadeiras, votando contra quem os colocou lá naqueles espaços.

O que estarrece não é pagar para ser roubado, para apanhar, para não comer, para adoecer e não ser educado.

O que sangra a alma não é ver navios afundando com gente dentro, por falta de vontade de deixar viver em solo pátrio (ou por medo de multas e prisões se salvarem a “gente” que está dentro).

O que dilacera não é ignorar a agressão a pobres, negros, índios, mulheres, crianças, gays (só por serem pobres, negros, índios, mulheres, crianças, gays) e celebrar mundialmente a escolha do nome real.

A violência está em ver que há conivência pela crença de que isto é um regime democrático, com a liberdade de falas (de todos). A violência é a crença de que existe binarismos simples, existe imparcialidade de comunicação e não somos todos, ao fim e ao cabo, submissos a uma vida que se passa no sofá assistindo à televisão domingo à noite, esperando a segunda-feira começar para o mais do mesmo.

O que choca, desestabiliza, indigna, ultraja, estarrece, violenta, dilacera a carne, a moral, a vida é saber que isso nada mais é do que ser humano.

O que me move é que não sinto isso sozinha e ao nadar contra essa correnteza de ódio e descaso, vejo outros comigo.

#SerHumano #Oque

#SerHumano
#Oque

(todas as imagens foram retiradas da internet)

Dos fatos isolados

Rasga a pele
Dilacera a alma
Interrompe a vida
Destroça o corpo

Diminui a culpa
Minimiza o ato
Autoriza o tapa
O pau, a porra

Deixa o menino seguir
Legitima a vontade de gozar
E segue, acusa a menina:
De vestir, de andar, de beber, de existir

Aponta na rua e grita
Joga pedra, cospe, ejacula
Atira na lama, ignora o sofrer
Sofrer? Foi só um ato

Deixa a sociedade seguir
Na barbárie dos corpos
Que não podem viver
Sem pedir, ajoelhar, implorar

Até quando, mulher?
Até quando menina?

Enquanto banqueteiam-se
Isoladamente, futilmente
Desgastando a carne
Tratando como lixo

Até quando, homem?
Até onde humano?

Ri sociedade
Da piada sem graça
Do asco do corpo
Que segue na luta

Ri, com asco
Até quando?

Reage mulher
Usa tua voz
Tua gana
Tua força

Urra a plenos pulmões: NÃO MAIS
Meu corpo, minha luta, meu prazer,
Nessa pele a tua força
Só entrará com convite

Grita. mulher: quero e posso
Rir alto, beber muito
Trabalhar árduo, ganhar igual
Correr na rua: não é por ti

Grita, mulher: eu exijo o ato
Foder forte! Gozar? Todos os dias
Com minhas mãos ou tua língua
Mas só quando eu quiser

Grita o óbvio: meu corpo
Meu deleite, minha festa, 
Nessa casa mando eu
E só entra quando eu quiser

Chega de juiz
Chega de governo
Chega de gerência
No nosso corpo, mulher

Chega de culpa
Chega de abuso
Chega de desmando
No nosso corpo, mulher

Fato isolado?
Como o corpo dilacerado?
A vida interrompida?
A alma destroçada?

Até quando mulher?
Até quando menina?
Até quando homem?
Até onde humano?

Eu digo:
Não passarás

Nosso corpo, nosso prazer,
Nossa festa, nossas regras

Meu corpo Minhas regras Meu prazer

Meu corpo
Minhas regras
Meu prazer

Mas qual o motivo de tanta revolta, garota? Não sabes? De novo, ultraje, violência e permissividade.
“Mesmo tendo sido preso em flagrante, juiz levou em conta que jovem de 25 anos é réu primário e disse que estupro é “fato isolado”” – Não, não posso, não consigo, não quero calar-me. Não mais…
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/10/justica-manda-soltar-suspeito-de-estuprar-adolescente-na-capital-4620804.html?utm_source=Redes+Sociais&utm_medium=Hootsuite&utm_campaign=Hootsuite

Dos murros e das facas (ou das solidões coletivas)

Somos murro e somos faca
Somos indiferença
Pelos corpos arrastados
Achamos pouco, achamos justo
Insulto com assalto em nossa casa
Insulto, mas não com descaso
Nem desleixo
Do corpo maltratado

Me insulto
É de ver e sentir a vida
Crueza cotidiana
Com cor, pele e asfalto
Sou berro sem voz
Sou tristeza e pesar
De ver, sem sentir
Por ser murro e ser faca
Protegida
Da pele rasgada
Do pranto jorrado
Nas favelas
Nas misérias
Na bala, no sangue
Na luta de todos

Todos? Não eu…
Pois eu (nós)
Somos murro em ponta de faca
Esquecemos é que somos pouco murro
Afiamos e somos muito é a faca
Que corta, que deixa, que fura
Dilacera
A cor, a pele no asfalto
Somos faca
Que permite e acha
Que é pouco, que é justo
Com gana, temor e caos

Seguimos achando que somos
Mais murro do que faca
Que levamos mais peso e ferro
Do que leveza e boa vida…
Seguimos na certeza
De que não se envolver
É não optar pelo lado
Que dá o murro, a facadas
E deixa
A cor, a pele, o sangue no asfalto
Jorrando, jogado, maltratado
Achando pouco, achando nada
E chorando o assalto
Do relógio, do telefone, dos pilas
Desdenhando, justificando
O sangue, pelo pouco, pela vida
Que não é nossa

Sou murro em ponta de faca
Sou murro e sou faca
Sou murro, Sou fraca
Quando só
E tu? Queres ser só, comigo?
Ou só faca, com outros?

*Inspirado nas violências cotidianamente registradas, noticiadas, dilaceradas que deixam sangue no asfalto – não o nosso, que somos murro e faca – mas de quem leva o murro e a faca. Cansada de ver gente que acha pouco, diz não ser político e, por isso, opta por seguir ignorando a faca que é, por achar que dá murro demais. Cansada de ver e pouco fazer. Cansada de se dizer humana*

A falta que fazemos

Felicidade, mesmo, seria perceber
Tua inexistência em meu coração
Que partiste de vez sem deixar sombras, nem marcas

Teimosamente resiste a lembrança
Escondendo-se nos momentos de quietude
Deixando rastros de alegria e tristeza

O que se faz certeza
É que as memórias que se apagam
Não residem em mim

E a falta que fazemos
É parte cotidiana
De apenas um de nós

A cada dia

E a cada dia mais certeza
De que este vazio imenso
Que existe
Que invade
Que insiste
Permanece

A cada dia mais segura
De que fazes falta
Por motivos fúteis
Por razões inúteis
Por não estares aqui

Nos detalhes sutis
Te conheço
Me encanto
E entristeço

São os detalhes, ínfimos
As pequenezas de teu jeito
As bobagens de tuas palavras
A grandeza de teus sonhos
Que me alegram, me fazem sorrir

Ah! Essa distância que se impõe
Estes pensamentos que não entendo
Estas decisões que não me pertencem
Estes teus entusiasmos passageiros
Que a cada dia me perseguem, se instalam e ressoam

Bem te vi

Apenas espero

Meu mal é a sinceridade
Dizer o que pensa e sente
nesta vida de hoje
é correr riscos
de ser compreendido
e ser temido

Por outro lado
Pela sinceridade residir em nós
Esperamos reciprocidade
Um silêncio que conforte
Palavras verdadeiras
Sentimentos reais…

Apenas espero de vocês (agora de menos um).

Das utilidades

Utilizar, do dicionário Caldas Aulete:
“Tirar proveito de…
Ser vantajoso para…”
13012_336190093154372_1439776494_nSe o discurso é o do utilitarismo e é este que vale, Sr. Prefeito, afirmo categoricamente: EU UTILIZAVA ESTAS ÁRVORES.
E digo mais: Eu não utilizarei a copa, não gosto de futebol e não aceito ele como desculpa para TIRAR VANTAGEM DE MIM, cortando ÁRVORES QUE EU UTILIZAVA como cidadã de Porto Alegre.
Como brasileira, para variar, sinto-me indignada, inconformada com a banalização de nossas vidas, nossos amores, nosso trabalho para alimentar cimento, asfalto e concreto.
Sinto-me afrontada com nossa imobilidade e incapacidade de construir um país melhor, e de seguir elegendo seres com condições de fazer tudo contra nós, para seu próprio benefício e de uma corja de poucos. Sinto-me envergonhada de mim mesma, por aceitar calada a morte de árvores que estão lá, provavelmente, há mais tempo do que eu existo.
Sinto uma tristeza sem fim, de viver em um tempo e em um espaço em que ganância e futilidade imperam, a miséria prolifera e a mesquinhez é a palavra de ordem.

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